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O segredo da primeira igreja

Texto: Atos 1.1-8

Pr. Renato Costa - 16/10/16

A igreja primitiva provoca grande admiração em nós. Vamos começar tentando traçar o seu perfil:
1) Uma igreja sem um padrão básico de liturgia de culto(o culto não tinha dia, hora, ordem pré-definida ou mesmo um local fixo, para começar e terminar): Em Jerusalém, eles se reuniam no pátio do templo judaico, portanto, como um movimento sem igreja reclamando direitos de posse pelo uso capião de poucos dias; Se reuniam também em casas (Paulo escreve: a você Filemon, nosso amado cooperador, à irmã Afia, a Arquipo, nosso companheiro de lutas, e à igreja que se reúne com você em sua casa – Fm 1-2);

2) Uma igreja sem uma escola dominical razoavelmente bem estruturada (os apóstolos, no início, eram os professores e diretores da escola dominical, das uniões de treinamento, do seminário da época, e lecionavam para todas as idades – imaginem Pedro ensinando na classe de crianças; ou João, apóstolo do amor, a bondade e a paciência juntas numa única pessoa, ensinando uma classe de adolescentes). Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos (At 2.42);

3) Com uma doutrina mínima ainda em construção (Quando Paulo chega em Éfeso pela primeira vez, ele pergunta aos discípulos se eles haviam recebido o Espírito Santo quando haviam crido e, eles, por sua vez, respondem: não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo – 19.1); Um grande dilema que a igreja enfrentou em seu início foi entender qual o papel e a função da lei diante da graça, isto é, diante daquilo que Cristo havia feito e como ela se aplicaria ao não judeu convertido: o sábado ainda deveria ser guardado? A circuncisão deveria ainda ser praticada? Este dilema foi tema do primeiro concílio da Igreja Cristã em Jerusalém, como descrito em Atos 15, onde a liderança da igreja acordou entre si que as exigências da lei não deveriam ser impostas sobre os gentios; Uma igreja também um pouco hesitante em sua missão: os primeiros discípulos, inclusive Tiago, irmão de Jesus e Pedro, entendiam que o evangelho deveria ser pregado apenas aos judeus e não a todo o mundo, visão esta que passa a mudar, sobretudo, com a figura do apóstolo Paulo.

4) Uma igreja limitada em seus recursos (alguns ainda, como Ananias e Safira, queriam administrar as ofertas como bem queriam). Paulo, como muita naturalidade, escreve aos Romanos: planejo ir para a Espanha, visitá-los de passagem e dar-lhes a oportunidade de me ajudarem em minha viagem para lá (Rm 15.24). Uma igreja limitada em recursos, porém sem pessoas necessitadas: não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um – At 4.34-35.

5) Uma igreja sob a ameaça constante de hostilidades e perseguições por parte de judeus e por parte de romanos. Diz o texto que os judeus, ouvindo o testemunho de Estevão no Sinédrio, ficaram furiosos, rangeram os dentes contra ele, taparam os ouvidos e, dando fortes gritos, lançaram-se todos juntos contra ele, arrastando-o para fora da cidade e apedrejando-o logo em seguida (At 7.54-58); Paulo escrevendo a Timóteo, sua segunda carta, preso mais uma vez em Roma, o que resultaria no seu martírio, diz: na minha primeira defesa, ninguém apareceu para me apoiar; todos me abandonaram. Que isso não lhes seja cobrado. Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças... e eu fui liberto da boca do leão (2 Tm 4.16-17). Interessante é notar o que Paulo menciona no final da sua carta aos Filipenses: todos os santos lhes enviam saudações, especialmente os que estão no palácio de César (Fl 4.22).
Ser cristão naquela época não era nada fácil. Significava colocar-se contra as determinações do império mais cruel que a história já conheceu, contra a tradição herdade dos antepassados, contra os valores ético-morais da sociedade civil vigente, enfim, contra as inclinações da própria natureza humana por amor a Cristo e, além disso, tudo, dizer ao mundo que este era o melhor estilo de vida a se abraçar.

No entanto, apesar de todas as limitações, eles alcançaram o propósito a que se propunham. Como? Como é possível que uma igreja tão limitada em recursos, sem um padrão básico de liturgia de culto, sem uma escola dominical razoavelmente bem estruturada, com uma doutrina mínima ainda em construção e, como se não bastasse, sob constantes ameaças de hostilidades e perseguições por parte de judeus e romanos, o que significava estar sob ameaças de apedrejamento, de ser lançado a uma arena com leões famintos ou condenado à cruz, como diante de tantas adversidades e perigos, a igreja conseguiu, em poucas décadas após a morte e ressurreição de Cristo, alcançar as grandes metrópoles de sua época: Alexandria, Éfeso, Corinto, Antioquia da Síria, Atenas e a própria Roma, além do norte da África, de ilhas ao sul da Europa e de outras províncias como a Acaia e a Macedônia (Grécia), a Ásia Menor (Turquia), a Dalmácia (leste europeu, como Croácia, Montenegro e Bósnia), a Gália (França) e até a Espanha? Qual era o seu segredo? E mais, nos afirma o texto de Atos ainda que não haviam pessoas necessitadas entre eles, ou seja, como conseguiam dividir tudo o que tinham entre si, porém, entre milhares de pessoas, e o número só fazia crescer assustadoramente a cada dia?

Como conseguiram superar paradigmas de sua cultura que já estavam arraigados consigo, como por exemplo, que diferenciavam homem e mulher, adultos e crianças. A Igreja em Filipos começou na casa de uma mulher, Lídia. Em Romanos 16, Paulo cita uma igreja que se reunia na casa de Priscila e Áquila. O nome de Priscila primeiro sugere que era ela quem liderava aquele grupo. Paulo recomenda ao romanos uma serva do Senhor em Cencréia chamada Febe, e serva aqui significa diaconisa. E, tudo isso, sem um local fixo para reuniões, com limitação de recursos, com uma doutrina mínima em construção, o que gerou, inevitavelmente, uma série de problemas também: os cristãos em Tessalônica, entusiasmados com a expectativa da vinda de Cristo, pararam de trabalhar; os cristãos em Corinto se embebedavam com o vinho da ceia, abriram processos judiciais contra os próprios irmãos e tinham dúvidas em relação à ressurreição de Cristo; Paulo discutiu com Barnabé e se separaram porque Paulo guardava ressentimentos em relação a João Marcos; Paulo e Pedro discutiram entre si perante a igreja na Galácia; Filemon, um líder da igreja em Colossos, era também senhor de escravos. Portanto, uma igreja que não era perfeita, que em muitos aspectos não era exemplar, portanto, o que aconteceu, eu chego à conclusão, não foi mérito deles, não foi obra humana...

Deus estava presente e este era o segredo daquela igreja: porque eram dedicados à oração, ao ensino dos apóstolos, porque em todos havia temor, porque se importavam com a viúva e órfão, ou seja, com as questões sociais e, em assim sendo, manifestavam os valores do Reino, porque supriam as necessidades mutuamente, porque exerciam dons e talentos, aconselhando e cuidando uns dos outros, porque investiam na comunhão (At 2.42-47).

Aplicação
Precisamos orar para que Deus traga no tempo que se chama hoje, à igreja contemporânea, um avivamento espiritual (não em número, mas em qualidade de fé). Ou seja:

*Uma sensibilidade maior ao falar e agir do Espírito de Deus em nós;
*Uma consciência maior da nossa falta de santidade e da força do pecado ainda se manifestando em nossa natureza e nos conduzindo a um agir egoísta, a um pensar vingativo e a uma motivação corrompida;
*Um apego maior às Escrituras com humildade para permitir que ela nos leia e lance luz às áreas escuras de nosso caráter, de nossa razão, de nosso coração, de nosso casamento, de nossa família, da maneira como conduzimos os nossos negócios, da maneira como tratamos pessoas;
*Uma inclinação maior à presença de Deus em oração, onde o coração ansioso encontra descanso e onde o stress encontra alívio;
*Um desejo maior de ver a realidade em nosso entorno transformada pelos valores do Reino: bem aventurados os que têm fome e sede de justiça; maior felicidade há em dar do que em receber...
*Orar para que aprendamos com as crianças a lição da humildade e do servir. Evangelho é servir, é dar, é entregar, é dividir, é multiplicar, é compartilhar, não é julgar, não é acusar, não é impor, não é exigir, mas é sim lavar os pés: Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz. Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem... Esta é a ética do evangelho, é a ética do Reino, é a ética do cristão. É deste avivamento que precisamos.
*Orar para que aceitemos a cruz do evangelho. Aquele que quer vir após mim negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz, e siga-me. Jesus não prometeu uma vida sem dores, sem sofrimento, sem enfermidades, sem injustiças, mas prometeu que estaria conosco todos os dias até a consumação dos séculos.
*Orar, enfim, como o profeta Habacuque: Senhor, ouvir falar da tua fama; tremo diante dos teus atos, Senhor. Realiza de novo, em nossa época, as mesmas obras, faze-as conhecidas em nosso tempo; em tua ira, lembra-te da misericórdia (Hc 3.2).

Ilustração: orar para que possamos reagir, em ouvindo a pregação da Palavra do Senhor, com sensibilidade, temor, renúncia e entrega, para que, então, Deus possa operar em nós o fruto do seu Espírito, as mudanças que Ele deseja, enfim, a sua vontade soberana. Como no célebre sermão de Jônatas Edwards (1703-1758) – pecadores nas mãos de um Deus irado (um homem que passava 13 horas todos os dias, estudando e orando). Veja como os ouvintes reagiram ao ouvi-lo:

O povo, ao entrar para o culto, mostrava um espírito leviano, e mesmo de desrespeito, diante dos cinco pregadores que estavam presentes. Jônatas Edwards foi escolhido para pregar. Era homem dois metros de altura; seu rosto tinha aspecto quase feminino, e o corpo magro de jejuar e orar. Sem quaisquer gestos, encostado num braço sobre a tribuna, segurando o manuscrito na outra mão, falava em voz monótona. Discursou sobre o texto de Deuteronômio 32.35: “Ao tempo em que escorregar o seu pé”.

Depois de explicar a passagem, acrescentou que nada evitava, por um momento, que os pecadores caíssem no Inferno, a não ser a própria vontade de Deus; que Deu estava mais encolerizado com alguns dos ouvintes do que com muitas pessoas que já estavam no Inferno; que o pecado era como um fogo encerrado dentro do pecador e pronto, com a permissão de Deus, a transformar-se em fornalhas de fogo e enxofre, e que somente a vontade do Deus indignado os guardava da morte instantânea.

Prosseguiu, então, aplicando o texto ao auditório: “Aí está o inferno com a boca aberta. Não existe coisa alguma sobre a qual vós vos possais firmar e segurar. Entre vós e o Inferno existe apenas a atmosfera... há, atualmente, nuvens negras da ira de Deus pairando sobre vossas cabeças, predizendo tempestades espantosas, com grandes trovões. Se não existisse a vontade soberana de Deus, que é a única coisa para evitar o ímpeto do vento até agora, seríeis destruídos e vos tornaríeis como a palha da eira... O Deus que vos segura na mão, sobre o abismo do Inferno, mais ou menos como o homem segura uma aranha ou outro inseto nojento sobre o fogo, durante um momento, para deixá-lo cair depois, está sendo provocado em extremo... Não há que admirar, se alguns de vós com saúde e calmamente sentados aí nos bancos, passarem para lá antes de amanhã...”

O resultado do sermão foi como se Deus arrancasse um véu dos olhos da multidão para contemplar a realidade e o horror da posição em que estavam. Nessa altura o sermão foi interrompido pelos gemidos dos homens e os gritos das mulheres; quase todos ficaram em pé, ou caídos no chão. Foi como se um furacão soprasse e destruísse uma floresta. Durante a noite inteira a cidade de Enfield ficou como uma fortaleza sitiada. Ouvia-se, em quase todas as casas, o clamor das almas que, até aquela hora, confiavam na sua própria justiça. Esperavam que, a qualquer momento, o Cristo descesse dos céus com os anjos e apóstolos ao lado, e que os túmulos entregassem os mortos que neles havia.

É impossível avaliar o grau do poder Deus, derramado para despertar milhares de almas, para a salvação, sem primeiro nos lembrarmos das condições das igrejas da Nova Inglaterra, e do mundo inteiro, naquela época. Passara a glória e a igreja, indiferente e cheia de pecado, se encontrava face com o maior desastre... (extraído do livro: Heróis da Fé, de Orlando Boyer – CPAD).

Conclusão:
Um dia, a Igreja em Éfeso foi alvo de um grande avivamento espiritual (At 19). Mas um dia também, João escreveu uma advertência àquela igreja dizendo: tenho contra ti isto: vocês abandonaram o primeiro amor. Volte-se, arrependa-se e volte a praticar as obras que você praticava no início, senão, virei contra você e tirar de você o meu candelabro (Ap 2.4-5). A igreja não reagiu, não voltou ao seu início... a presença de Deus se ausentou e a igreja de Éfeso deixou de existir.

Um dia a Europa, como o Brasil hoje, foi um celeiro de igrejas e de missionários. Hoje, não poucas igrejas, se tornaram teatros, cinemas, livrarias e pontos turísticos, porque a Europa também abandonou o primeiro amor. A presença de Deus se ausentou e a Europa hoje é vazia de Deus.

Que não aconteça o mesmo com a igreja brasileira, se é que já não está acontecendo! Que a oração do profeta Habacuque seja a nossa oração: Senhor, ouvir falar da tua fama; tremo diante dos teus atos, Senhor. Realiza de novo, em nossa época, as mesmas obras, faze-as conhecidas em nosso tempo; em tua ira, lembra-te da misericórdia (Hc 3.2). E que assim, apesar de nós, possamos cumprir a nossa missão, como o fizeram os primeiros cristãos.



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